domingo, 9 de novembro de 2008

UM VICIO CHAMADO SOBERBA I

“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas interiormente são lobos devoradores. Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos? Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus. Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons. Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis.” Palavras de Yeshua (Jesus), registradas no capítulo 7 do Evangelho segundo Mateus.

“E dizia: O que sai do homem, isso contamina o homem. Porque do interior do coração dos homens saem os maus pensamentos, os adultérios, as prostituições, os homicídios, os furtos, a avareza, as maldades, o engano, a dissoluções a inveja, a soberba, a loucura. Todos estes males procedem de dentro e contaminam o homem.” Palavras de Yeshua (Jesus), registradas no capítulo 7 do Evangelho segundo Marcos, versos 20 a 23.

“ Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são eles dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal; e qualquer que entre vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo; bem como o filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos”. Evangelho segundo Mateus, capítulo 20, versos 25 a 28 .

“Então falou Jesus á multidão e aos seus discípulos, dizendo: Na cadeira de Moisés estão assentados os escribas e fariseus. Observai, pois e praticai tudo o que vos disserem; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não praticam: Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los; e fazem todas as obras a fim de serem vistos pelos homens; pois trazem largos filactérios, e alargam as franjas dos seus vestidos, e amam os primeiros lugares nas ceias e as primeiras cadeiras nas sinagogas, e as saudações nas praças, e o serem chamados pelos homens: Rabi, Rabi. Vós, porém, não queirais ser chamados Rabi, porque um só é o vosso Mestre a saber, o Cristo e todos vós sois irmãos. E a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus. Nem vos chameis mestre, porque um só é o vosso Mestre, que é o Cristo. Porém o maior dentre vós será vosso sevo. E o que a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado.” Evangelho segundo Mateus, capítulo 23, até o verso 12. Bem entendido que “praticai tudo o que vos disserem” deve ser entendido no sentido de “aquilo que se conforma com o Ensino (Torah) de Moisés”, pois em outros discursos Yeshua (Jesus) renega vários ensinos comuns entre a maioria dos fariseus, e que o Mestre considera contrários ao espírito da Torah.

Diótrefes
Há duas ou três semanas ouvi, na igreja, um sermão a respeito da Terceira Epístola do apóstolo João. Durante a semana, numa reunião na casa de irmãos da igreja, falávamos a respeito, e eu fiz um comentário sobre a ligação entre a maldade de Diótrefes e o seu desejo de poder. Este texto pretende ser um desenvolvimento de tais comentários. É visível, na história da Igreja cristã, que o ensino do Mestre contra a auto-exaltação não foi seguido fielmente. Busco entender como tal oposição entre o Seu ensino e a prática dos seus supostos seguidores pôde ser tão aguda. Vejamos o caso de Diótrefes:
“Tenho escrito à igreja; mas Diótrefes, que procura ter entre eles o primado, não nos recebe. Pelo que, se eu for, trarei à memória as obras que ele faz, proferindo contra nós palavras maliciosas; e, não contente com isto, não recebe os irmãos, e impede os que querem recebe-los, e os lança fora da igreja.
Amado, não sigas o mal, mas o bem. Quem faz o bem é de Deus; mas quem faz mal não tem visto a Deus.” Terceira Carta do apóstolo João, versos 9 a 11.
A descrição que o apóstolo João faz de Diótrefes mostra um personagem deslocado em relação à descrição dos primeiros cristãos, gente generosa, amável e desassombrada. Diótrefes parece reunir em si uma notável capacidade de controle sobre os outros com uma personalidade mesquinha e maldosa. Se não, vejamos: Ele teve poder o suficiente para impedir a igreja cristã em sua cidade, de receber cartas do próprio apóstolo João. Não de um simples bispo ou de um apóstolo no sentido mais genérico, mas simplesmente um dos doze. Mais do que isto, impedia que os irmãos recebessem irmãos de outro lugar, aprovados pelo apóstolo e até mesmo expulsava da igreja os irmãos de quem ele discordava. Quando o apóstolo diz “que quer ter primazia entre eles”, está deslegitimando tal primazia, mas a descrição dos atos de Diótrefes confirma que ele a tinha na prática, apesar de ilegítima. Em outras palavras, Diótrefes seria reduzido a seu real tamanho, quando o apóstolo lá chegasse, mas enquanto isso, os irmãos o viam como maior do que ele realmente era, ou tinham tal medo de seu poder que se submetiam a ele. E seu real tamanho, segundo a avaliação de João, parece ser o de alguém que nem sequer deveria ser considerado um dos irmãos. Fico pensando na multidão de Diótrefes, ao longo de quase dois milênios, que não tiveram um apóstolo João para cortar-lhes as asas. Penso também em quanto tais homens influíram na construção do que hoje é chamado cristianismo.
Impressiona-me a aceitação pelos irmãos da suposta “primazia” de alguém, com supostos poderes para excluir irmãos assim, sem dar contas a ninguém. Isso está em oposição direta ao ensino do Mestre, que havia dito, “a ninguém na terra chameis pai, pois um só é vosso Pai .....”. Mas impressiona ainda mais que o tal “primaz” seja um não irmão, um lobo em pele de cordeiro. Isto faz pensar ... talvez o melhor lugar para procurar os lobos seja no comando dos cordeiros. Vejamos um exemplo:
“O que digo, não o digo segundo o Senhor, mas como por loucura, nesta confiança de gloriar-me. Pois que muitos se gloriam segundo a carne, eu também me gloriarei. Porque, sendo vós sensatos, de boa mente tolerais os insensatos. Pois sois sofredores, se alguém vos põe em servidão, se alguém vos devora, se alguém vos apanha, se alguém se exalta, se alguém vos fere no rosto.” Segunda Carta do apóstolo Paulo (Saul) aos Coríntios, capítulo 11, versos 16 ai 20.
Na Carta do apóstolo Paulo, citada acima, ele dedica os capítulos 10 e 11 e boa parte do 12 a repreender, de forma até um tanto irônica, os irmãos por aceitarem como verdadeiros ministros pessoas que tinham má intenção em seu coração. Parece que a soberba é um característica comum nos falsos mestres, falsos bispos, falsos apóstolos, etc. E, segundo a profecia, isto será pior ainda nos últimos tempos (os atuais?):
“Sabe, porém, isto; que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural, irreconciliáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, sem amor para com os bons, traidores, obstinados, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus. Tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela. Destes afasta-te.” Segunda Carta do apóstolo Paulo (Saul) a Timóteo, capítulo 3, até o verso 5.
“Mas o Espírito expressamente diz que nos últimos tempos apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores, e a doutrinas de demônios; pela hipocrisia de homens que falam mentiras, tendo cauterizada a sua própria consciência; proibindo o casamento e ordenando a abstinência dos manjares que Deus criou para os fiéis, e para os que conhecem a verdade, a fim de usarem deles com ações de graças.” Primeira Carta do apóstolo Paulo a Timóteo, capítulo 4, até o verso 3.
Yeshua havia dito “pelos frutos os conhecereis”. Alguns entendem “frutos” como número de adeptos. Assim, o “líder” que tem muitos adeptos é visto como aprovado. Mas pelo critério “a Escritura interpreta a Escritura”, devemos buscar em outros textos o que significa fruto.
“O fruto do Espírito é amor, alegria, paz longaminidade, benignidade, bondade, fé, mansidão temperança.” Carta do apóstolo Paulo aos Gálatas.
“...sois fruto do meu trabalho no Senhor” Primeira Carta do apóstolo Paulo aos Coríntios, capítulo 9, verso 1.
Como ficamos? “Frutos” são os atos que refletem o interior da pessoa, como indica o primeiro texto, ou número de adeptos, como parece indicar o segundo?
“Mas outros, na verdade, anunciam a Cristo por contenção, não puramente, julgando acrescentar aflição às minhas prisões. Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneria, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo, e me regozijarei ainda.” Carta do apóstolo Paulo aos filipenses, capítulo 1, versos 17 e 18.
É claro que sobre tais pessoas, que pregam por motivos injustos, não pode-se dizer que são “árvores boas”. Proponho uma solução possível. A Palavra do Eterno é tão poderosa, que mesmo na boca de uma pessoa com más intenções é capaz, às vezes, de produzir a Verdade no coração de quem ouve. Mas se uma pessoa a prega pelos motivos certos, tal pregação e os seus efeitos são um “fruto bom”, conforme Yeshua (Jesus) quis dizer. Neste caso, é uma obra boa, produzida por um coração já reconciliado com o Eterno.
Resumindo este artigo, o ensino do Cristo e de seus enviados (apóstolos) é que tenhamos cautela em relação aos lobos devoradores que tem aparência de piedade. Este é certamente um ensino do Mestre que nós os cristãos (particularmente nós evangélicos brasileiros) temos desprezado, com amargos resultados. Temo ao pensar quanta paulada na cabeça teremos de levar para começar a aprender esta lição.

2 comentários:

hugofpontes disse...

Belo texto, Aprendiz. Muito expressivos estes trechos. A gente vê exatamente isso. Parabéns pelo teu trabalho. Teu blog tá nos meus favoritos. Leituras muito construtivas. Abraço!

Aprendiz disse...

Seja bem vindo, e escreva mais. Gosto de uma troca de idéias.