domingo, 9 de novembro de 2008

UM VÍCIO CHAMADO SOBERBA II

DISCORDÂNCIA DE AVALIAÇÃO
Entre os antigos gregos e romanos, se dizia que a soberba é um vício de tolos e infantis, algo mais digno de pena do que de repreensão. Os cristãos, seguindo o ensino dos profetas israelitas, consideram a soberba um vício terrível e violento, uma afronta ao próprio Eterno. Quem terá razão?
Começarei concordando com os clássicos. A soberba é tão tola e infantil que é de difícil compreensão para um adulto normal. É compreensível em uma pessoa de 10, 12, 16 anos e é possível lembrar-me de como é ser um adolescente assim. Mas parece uma deformidade em alguém com trinta, quarenta, sessenta anos. Parece absurdo alguém viciado em pensar só coisas exageradamente boas a respeito de si mesmo. Digo viciado no sentido moderno, pois só uma atração doentia pode explicar algo assim. Como um adulto são pode permitir-se isso? Ele não sente-se um tanto ridículo? Compreendo a cobiça, a leniência, a procrastinação, a preguiça, a insensatez, a concupiscência, a fornicação, o ódio, a ira, os maus pensamentos, a mentira, a burrice, a covardia, a teimosia, e outras tantas coisas. Mas o mundo interior de um adulto soberbo parece algo tão estranho que é difícil imaginar sua existência real. Entretanto, embora pareça algo improvável, vemos os resultados de sua existência o tempo todo.
Mas depois de ter concordado com os gregos e romanos, terei de concordar ainda mais com os judeus e cristãos. Por mais infantil, ridículo e grotesco que seja este vício, ele é, em primeiro lugar, comum. Topamos com ele como com folhas na floresta. Nos escritórios, nas universidades, nas igrejas, na imprensa, parece que grande parte do que as pessoas fazem é acalentar seus próprios egos. Olhando o modo das pessoas agirem, parece ser algo mais atrativo que grana, que sexo, que a beleza, que a vida. E, por mais estranho que pareça, vê-se essa loucura nos lugares onde deveria prevalecer a razão. Os acadêmicos e intelectuais tem freqüentemente uma sanha por convencer os outros e a si mesmos de terem um valor elevadíssimo. Muito do que parece soberba é, na verdade, medo da desonra, pressão dos pares, ambição calculista, a compreensível concorrência profissional, e até um normal respeito próprio e senso de auto-preservação, mas tirando tudo isso, parece haver ainda doses cavalares de idolatria da auto-imagem.
Em segundo lugar, por ser um vício também no sentido moderno, ele é urgente, violento, louco. As pessoas fazem coisas inacreditáveis por ele, como um viciado em drogas. Ele vai tomando conta da personalidade, destruindo o que há de mais humano, remodelando suas relações, alienando as pessoas de suas próprias famílias.
Em terceiro lugar, justamente por ser ao mesmo tempo grotesco e urgente, ele exige do pecador a mentira. Não a mentira ocasional, mas sistemática. Nada melhor para alguém viciado em pensar bem de si mesmo, que uma visão de mundo que seja coerente com esse pensamento. Como um bêbado ou drogado, que mente sistematicamente e acaba enlouquecendo, assim também a soberba causa demência. Seria sofrido demais uma pessoa pensar “gosto de pensar coisas exageradamente boas a meu próprio respeito”. A medida que a pessoa vai tornando-se mais madura, e vai sendo confrontada com seus próprios limites, defeitos e loucuras, ela percebe que não é tudo isso. Para manter-se soberba, ela terá de criar uma visão de mundo falsa, uma realidade distorcida. É certo que ele faz parte de uma elite com méritos especiais e, preferencialmente, acima do bem e do mal, pois o mal que ele não quer ver em si precisa ser negado. O soberbo é, essencialmente, um alucinado.
Em quarto e último lugar, um soberbo é uma vaquinha de presépio. Alguém em busca de uma falsa realidade, como alguém em busca de uma droga química, sempre encontrará um fornecedor em busca de vantagens. E, mais que fornecedores de drogas, esse fornecedor de sonhos domina a vida de seu cliente. Durante muitos séculos, tais fornecedores foram relativamente desorganizados. Epicuristas aqui, bajuladores ali, seitas de mistério, cortesãos em luta pelo poder. As seitas de malucos como Jim Jones, ou aqueles japoneses que faziam atentados no metrô são exemplos modernos do que se pode conseguir das pessoas quando se diz a elas que são seres especiais, mais merecedores do que os outros homens. Mas um mercado desses não pode ficar desorganizado para sempre. E se fosse possível criar uma visão de mundo que tivesse uma ética totalmente finalista? Contribuir para a causa está acima de qualquer obrigação moral. Pode-se construir um movimento assim como uma seita menor dentro das religiões ou como um fluxo principal por um período limitado de tempo, mas é possível torna-la o fluxo principal de uma civilização inteira? Sim é possível. As seitas socialistas modernas (marxistas) junto com seus aliados (nazismo, fabianismo, globalismos, ambientalismos, cientificismos, bem como o islã radical) tem uma ética totalmente finalista, que permite aos seus seguidores sentirem-se superiores moralmente, mesmo quando praticam os piores crimes. São também, em seu conjunto, o fluxo principal da história contemporânea. Quando digo aliados, quero dizer que todas tem a finalidade de criar uma sociedade em que o senso de realidade é totalmente artificial.
Não é sem motivo que os adolescentes parecem cada vez mais crianças mimadas e os adultos, adolescentes. Mas a infantilização, um dos preços que eles pagam pelo vício, certamente não é o preço principal. Essa promoção da soberba em escala industrial, vista no mundo moderno e contemporâneo parece-me ter sido essencial para fazer dos últimos três séculos um espetáculo de violência assombrosa. Nunca matou-se, prendeu-se, torturou-se, roubou-se tanto, e nunca as pessoas se consideraram tão boas e justas. Este último século poderia ser especialmente pacífico, pois a multiplicação dos recursos materiais deveria diminuir a pressão pela guerra e pelo genocídio. Mas, em nome de “belos ideais”, foi um inferno. Com uma ideia na cabeça e um livro na mão, os homens tornaram-se “frias máquinas de matar”, mas cada um vê a si mesmo como pertencendo ao “o escalão mais elevado da humanidade”, enfim, demônios em pele de gente. Inverter a realidade e as proporções dos fatos, buscar desesperadamente a aprovação das pessoas, mentir até não lembrar mais a diferença entre a realidade e a invenção, e depois declarar que a realidade não existe, nada é louco demais para o homem ideologizado. Até a paz foi seqüestrada, numa época em que quase todo “movimento pela paz” é arma de propaganda de guerra, geralmente a favor da parte mais violenta.
Mas, embora este fenômeno da psiquê contemporânea seja assombroso, é virtualmente invisível para a maioria dos estudiosos. Convencidos, pelos materialismos, da realidade das explicações puramente economicistas, não conseguem ver a incongruência de tanta violência num mundo de abundancia. Mais ainda, não conseguem perceber que, mesmo naqueles lugares em que há carência material, são a violência e irracionalidade da busca do sonho que provocam o pesadelo, pois o conhecimento técnico, há muito, permite a multiplicação dos recursos.
Creio na visão judaico-cristã sobre a soberba e ela é consistente com os fatos da história. E, a bem da verdade, ela não nega percepção dos clássicos, mas engloba-a. A Tanach (Antigo Testamento) reconhece que o soberbo é louco e absurdo. Mas reconhece também que seu interior está cheio de violência. Como o anjo caído, do qual falou Ezequiel.

5 comentários:

pretas54 disse...

Muito

Aprendiz disse...

Seja bem-vinda.

Anônimo disse...

Inconformada com a constatação de que, um filho tido por bonito, inteligente, e outros tantos adjetivos, pelas pessoas, o levaria a mares de tormenta (principalmente para mim como mãe, vim buscar na web 'falas outras' que não fossem aquelas de pura entrega ao acaso e ao conformismo.
A reflexão que encontrei abarcou o que em outras palavras eu colocaria, mas seria sem essa fundamentação tão clara e pertinente. Parabéns! Obrigada.

Aprendiz disse...

Grato pela visita. Não esperava que este texto fosse util a alguém com uma dor tão profunda. Peço ao Eterno que lhe de onsolo e direção.

hugofpontes disse...

Aprendiz, palmas pra ti. Sério. Muito bom. Você fez a análise perfeita. A soberba é o maior mal da humanidade. Causa alucinação.